
Quando abri os olhos, não acreditei no que via. Estava dentro de um carro vermelho, a ver meus olhos pelo espelho, envolto por um capacete, uma carapuça que podia me encobrir, mas jamais me esconder. Senti na alma o coração bater, ainda que de forma apressada, como a me avisar "olha a largada" e pare de pensar em outra coisa para não perder este Grande Prêmio Você!
Como vim parar ali? Não entendia! Como estava pilotando uma máquina desta tecnologia? Não sabia! Por que não avisaram de forma antecipada? Cale a boca, disse a razão ao coração, ou você vai errar a largada.
Uma luz vermelha, duas, três, um rosário delas e o apagar de todas simultaneamente, significava que eu tinha que seguir, ir em frente. Senti o carro me obedecer. Adotando um sangue frio que jamais tive, não me contive e me pus a acelerar. Larguei no bolo, ali pela meiúca, no quinto pelotão, onde começam as corridas os bobos ou os que não tem pistolão.
Que confusão. Carros se espremendo. Pessoas vibrando. Um que perdia a direção e via seu sonho se esvair em pedaço de reflexão. Depois da corrida entendi que nestas horas o que você menos pode fazer é refletir. Mas por mais que seja complexo, mantenha em dia o seu reflexo, porque dele você vai precisar.
Na primeira curva, estava em quinto. Depois de vir de décimo e tal. Se ganhasse a corrida - assim entendi - missão cumprida. Meu sonho realizado e de novo, no caminho da vitória.
Fé em Deus e mãos no volante. Um pesadelo constante.
O pior que tudo que via passar, me distraía. Era o seu sorriso a me olhar, suas palavras a soar na mente e quando perdia a concentração, ouvia um barulhão: uma voz gritava... Cuidado, olha a frente.
Passei para quarto - que era o mesmo do que chegar em último lugar. Ninguém conquista sonhos se não se empenhar. Sonhos não nascem em árvores. Oportunidades não são dadas. Por mais que você cave, pode sair do chão um jorro de escuridão.
Uma. Duas. Dez voltas e eu nem pensava no dia. Pensava no troféu. Se ganhasse, aquilo cairia do céu. Se perdesse, bem, a vida elege os perdedores para aplicar teses que não funcionaram. É o odioso ouvir quando alguém diz... eu já sabia que você não seria feliz.
Não era um Senna tampouco um Piquet, notei que no meu capacete tinha escrito a palavra você. Era minha corrida. Minha disputa especial. Minha vida, em apenas algumas voltas nas quais você deve dirigir com esperança de sair... Mas a minha ambição era maior. Não queria ganhar só. Depois de vencido, aí sim, o sonho é cumprido. Sozinho é apenas um instante prometido.
Foi então que cheguei na metade da disputa. No meio da corrida e um cara, com voz de pato, chama-me pelo nome, pelo meu nome de nascimento. É hora do reabastecimento.
Se era um sonho, cumpriria. Se era um sonho, não reagiria. Entrei no boxe e para minha surpresa, não havia um mecânico sequer a me esperar. Tinha gente, que eu passei a gostar. Pessoas que eu aprendi a amar! Gente que olha mais para a paisagem do que para o fim da estrada, Todos diziam. Boa sorte, meu camarada. Você vai conseguir. Desta você vai sair. Vai vencer. Será o campeão! Em poucos segundos toda esta reanimação. Parecia que meu carro estava com tanque cheio, o freio, da marca receio, só era necessário de vez em quando. Coloquei-me na sexta posição, acelerando. Faltavam 15 voltas. Eis que o quinto derrapa. Ganhei mais esta etapa.
Passei para quarto com dificuldade. Lembrava dos gritos do meu combustível a dizer que em Deus somos um ser imbatível. Que nada nos pode acontecer. A menos de cinco voltas do fim, o quarto entrou na traseira do terceiro. E eu estava em segundo lugar.
Faltavam duas voltas. Apenas oito quilômetros para eu vencer ou por tudo a perder. Em alta velocidade. Em enorme emoção. Ninguém vai me prender. A poucos metros da chegada, uma derradeira acelerada e a ultrapassagem que eu queria. Pronto. Eu vencia...
... E quanto comemorava, acordava para mais um dia. Foi então que notei a lição que recebia. Sintonizei a TV em um canal de sports em que uma corrida se repetia. Lembrei do sonho que me embalara. Em alguns outdoors lá estava que você me amava, mesmo enquanto eu acelerava...Mas eu não podia ler. Tinha que acelerar. Vencer
Prestes a encarar aquela corrida, o Grande Prêmio Você da minha Vida, te liguei para me avisar que quando eu chegasse, um mundo de sonhos a gente comemorasse. Como se fôssemos um carro de corrida. O circuito, nossa vida... E o combustível uma inovação: da marca amor, com o aditivo paixão... Gente, eu, pelo menos, naquela noite, fui campeão!